"Primeiro,as cores.
Depois,os humanos.
Em geral,é assim que vejo as cores.
Ou,pelo menos,é o que tento.
* EIS UM PEQUENO FATO *
Você vai morrer.
Com absoluta sinceridade,tento ser otimista a respeito de todo
esse assunto,embora a maioria das pessoas sinta-se impedida
de acreditar em mim,sejam quais forem meus protestos.
Por favor,confie em mim. Decididamente,eu sei ser animada,
sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As.
Só não me peça para ser simpática.
Simpatia não tem nada a ver comigo
* REAÇÃO AO FATO SUPRACITADO *
Isso preocupa você?
Insisto - não tenha medo.
Sou tudo,menos injusta.
....................
O que me traz à minha colocação seguinte.
São os humanos que sobram.
Os sobreviventes.
É para eles que não suporto olhar,embora ainda falhe em muitas
ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça,
mas,vez por outra,sou testemunha dos que ficam para trás,
desintegrando-se no quebra cabeça do reconhecimento,do desespero
e da surpresa. Eles têm coração vazados. Têm pulmões esgotados.
O que,por sua vez,me traz o assunto de que lhe estou falando
esta noite,ou esta manhã ou seja lá quais forem a hora e a cor.
É a história de um desses sobreviventes perpétuos-uma especialista
em ser deixada para trás.
É só uma pequena história,na verdade,sobre,entre outras coisas:
* Uma menina
* Algumas palavras
* Um acordeonista
* Uns alemães fanáticos
* Um lutador judeu
* E uma porção de roubos
Vi três vezes a menina que roubava livros.
* UM ANÚNCIO TRANQÜLIZADOR *
Por favor,mantenha a calma,apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta...
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado."
..................
Entre 1939 e 1943,Liesel Meminger encontrou a morte
três vezes.E saiu suficientemente viva das três ocasiões para
que a própria,de tão impressionada,decidisse nos contar sua
história,em "A menina que roubava livros".
Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel,numa área
pobre de Molching,cidade próxima a Munique,ela precisou
achar formas de se convencer do sentido de sua existência.
Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe,
a menina foi largada para sempre as cuidados de Hans e Rosa
Hubermann,um pintor desempregado e uma dona-de-casa
rabugenta. Ao entrar na casa nova,trazia escondido,na mala,
um livro, "O Manual do coveiro". Num momento de distração,
o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o
primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos
quatro anos seguintes. E foram esses livros que nortearam a
vida de Liesel naquele tempo,quando a Alemanha era
transformada diariamente pela querra,dando trabalho dobrado
à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e
uma ocupação;a sede de conhecimento deu-lhe um propósito.
E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas,as destacou,
elas seriam,mais tarde,aplicadas ao contexto da sua própria
vida,sempre com a assitência de Hans,acordeonista amador e
amável,e Max Vanderburg,o judeu do porão,o amigo quase
invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros
personagens fundamentais na história de Liesel,como Rudy Steiner,
seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve.
E a mulher do prefeito,sua melhor amiga,que ela demorou a
perceber como tal.